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Consequência, Punição e HOP.

  • Foto do escritor: Eduardo Machado Homem
    Eduardo Machado Homem
  • 10 de nov.
  • 4 min de leitura

Buscar uma gestão de segurança com uma cultura justa, talvez seja um dos maiores desafios na área de segurança. Quiçá uma utopia.



Fundo azul claro com o logo da Do Safety e as palavras: consequência, punição e HOP.

Há algum tempo eu ouvi um podcast chamado "Crime e Castigo". Não se trata de uma discussão sobre a obra de Dostoiéviski, mas da explanação de alguns crimes que aconteceram no Brasil e que tiveram enorme repercussão. Em todos os casos, a justiça, do ponto de vista dos parentes da vítimas e dos criminosos, nunca foi suficiente para aplacar os anseios dos envolvidos. Ou seja, parentes da vítima não sentiam que houve justiça e os parentes de criminosos acreditam que a punição foi exagerada. Ao final, o podcast toca no tema da justiça restaurativa, mas este texto não é sobre isso.


A máxima de que a justiça pode ser um desafio utópico é um soco no estômago, mas a realidade insiste em comprová-la: se leis, regras e punições funcionassem, o Brasil seria o país mais seguro do mundo.


A nossa legislação é um labirinto normativo, vasto e complexo. Temos mais leis, regras e regulamentos do que muitas nações. A despeito desse arcabouço, a insegurança persiste, seja nas ruas ou, metaforicamente, nos processos internos de nossas empresas. Por que, então, no ambiente corporativo, a punição ainda é vista como a "bala de prata" para corrigir desvios de comportamento em Segurança do Trabalho? 


A ideia de que a punição como consequência de um ato educa é sedutora e ingênua. O estudo do comportamento por grandes behavioristas do século passado nunca validaram isso, por mais que se diga o contrário. Punição, ou comando e controle, servem para controlar comportamento no curto prazo, mas não educam para a posteridade.

Inúmeros pensadores, de Michel Foucault a B.F. Skinner, já deixaram claro: a punição não tem o potencial de ensinar um novo comportamento. Foucault, em Vigiar e Punir, apontou que ela serve mais para manter o poder e o controle social do que para promover uma correção genuína. Skinner, um dos pais do behaviorismo, defendia que a punição pode suprimir um comportamento indesejado temporariamente, mas nunca o elimina, nem direciona o indivíduo para a conduta desejada. A punição gera medo e submissão, mas jamais compreensão ou mudança intrínseca.


No contexto da segurança, essa insistência na punição é a grande patrocinadora da omissão. Quando um colaborador comete um erro, ao invés de reportar a falha, uma informação vital para que o sistema aprenda e se corrija, ele a esconde por medo da advertência, do castigo ou de se tornar um alvo na próxima lista de demissões. 


O resultado disso é um sistema de gestão de segurança fracassado. Você está dirigindo olhando apenas para o retrovisor, ou pior, sem olhar para lugar nenhum, apenas contando com a sorte. A informação que nos mostra em que o sistema falhou e permitiu o erro não chega aos decisões de investimentos e morre na base da pirâmide organizacional. 


O senso comum acredita que o antídoto seria a A Filosofia HOP, mas este pode ser um engano terrível. Não basta "implementar" uma nova filosofia quando as pessoas que deveriam vivê-la ainda têm um pensamento centrado na normalização da culpabilização ao ponto de achar que isto é um indício de rigor e retidão.


A mudança é profunda, o esforço leva muito tempo e as relações de perdas e ganhos com a filosofia HOP precisam ser colocadas sobre a mesa para negociação. Sim, há perda substancial para os gestores decisores quando se trata de implementar qualquer nova filosofia, padrões, sistemas e ferramentas. Ignorar isso é ingenuidade.


A filosofia Human and Organizational Performance (HOP) se apoia na condição mais inerente do ser humano: a imperfeição. Há ditados da sabedoria popular que mostram a verdade por trás do HOP: “mostre-me alguém que nunca errou que eu lhe mostro alguém que nunca fez nada” ou, o mais popular, “só quebra prato quem lava a louça”. 


Ao se apoiar em princípios simples, HOP mostra que o desafio não é pequeno: pessoas erram, continuarão cometendo erros e a origem da falha está, quase sempre, no ambiente físico ou no sistema organizacional. 


Portanto, culpar as pessoas pelos erros e falhas é como chutar um cachorro porque ele não sabe ler uma placa do jardim em que está escrito: "Não deixe seu cão fazer cocô na grama." Culpar não resolve.


A chave não é abolir a aplicação de consequências (elas são, afinal, o último recurso para ordem e disciplina), mas sim, inverter o foco da investigação. Sim, investigação! Temos a tendência de achar que mudar o nome da coisa, muda a coisa. Você só mudou o nome da coisa. O que importa é o processo. Em vez de perguntar quem errou, pergunte: o que no nosso sistema permitiu que a falha acontecesse?


Essa mudança de enfoque, do quem para o sistema, é o que constrói uma cultura de confiança e um ambiente justo. É o que permite o aprendizado organizacional em que a falha de um se torna o conhecimento de todos. Mudar o sistema é a única forma de garantir que o erro não se repita.


Mas o sistema vai fazer de um tudo para que tudo permaneça igual.


Não se iluda, trabalhar os princípios da filosofia HOP na cultura de segurança é um esforço hercúleo.

 
 
 

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